A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida.
Oscar Wilde
A frase atribuída ao inglês Oscar Wilde, embora possa ser lida dentro do tom melodramático que o ensaísta costuma adotar, traz uma pergunta possível dentro dos estudos das ciências humanas. A pensar, refletimos a questão ventilada nessa sentença inicial: É possível o ato de conhecer através da arte?

A reflexão sobre o tema nos remete que a busca por esclarecimentos sobre o todo social e suas particularidades, dentro da análise de manifestações artísticas, não é um fenômeno de nossos tempos. A consolidação da televisão para as grandes massas e as produções cinematográficas milionárias de Hollywood mudaram a forma e, principalmente, os conteúdos exibidos ainda durante os anos 1970. A propensão de usar essa linguagem como fonte histórica primária ou como observação de uma realidade projetada e idealizada pela sociologia ganharia campo entre pesquisadores dos mais variados campos. Embora ocorressem resistência pontuais, o avanço técnico das produções e o uso de temas do cotidiano abririam espaços para que houvesse a possibilidade de estudos avançados em torno de tais mídias.
Então, a resposta para pergunta inicial é mais do que positiva. As artes visuais ofereceram uma grande monta de experiências traduzidas em linguagens nos mais diferentes formatos.
O destaque inicial dessa alteração na visão analítica das artes visuais seria oferecido ao cinema. Segundo José de Sousa Miguel Lopes, a sétima arte seria um “testemunho da sociedade que o produziu, como um reflexo — não direto e mecânico — das ideologias, dos costumes e das mentalidades coletivas” passível, portanto, de observação, estudo e instrumento válido para o entendimento das dinâmicas atuais das sociedades ditas modernas.
Décadas depois encontraremos um ambiente prolífico para a produção cultural no mundo. A chamada geração de 1968 se via adulta e consolidada, os reflexos do fim da Guerra Fria e a construção do mundo multipolar oferecia esperanças para a resolução de velhos problemas sociais e tecnologias antes restritas ao chamado “mundo desenvolvido” aflorava com algum atraso no “mundo em desenvolvimento”. Temáticas intimistas e de caráter social pipocavam nas telas junto com películas que ilustravam invasões alienígenas e mundos pós-apocalípticos.

Com a virada do novo milênio a produção cultural avançaria em outros campos que engatinhavam nas eras passadas. A criação de interfaces mais rápidas, visualmente atrativas, com conteúdo que atraiam pessoas de todas as idades deram os videogames um protagonismo inesperado, mas ao mesmo tempo dominantes quando olhamos para mídias audiovisuais. É impossível não considerar as formas e conteúdo dos jogos digitais, do despretensioso jogo de celular até os MOBA (multiplayer online battle arena) cooperativos, existem proposições sociais a serem estudados, com relações latentes com as mais diversas áreas das ciências humanas.
Portanto, nos valendo dessas mudanças sociais importantes na esfera cultural e das possibilidades de acesso ao conteúdo das mídias audiovisuais do mundo contemporâneo pelos nossos alunos, estenderemos para esse espaço virtual a publicação de textos produzidos por nosso corpo discente em que as relações entre as realidades projetadas nas mídias possam ser lidas e entendidas pelo amplo leque de conhecimentos gerados pela tradição das ciências humanas. Essa é a certidão de nascimento da nossa nova publicação, com muito orgulho, apresentamos a Revista Litteratus.
Essa iniciativa, além da construção de saber inerente ao ambiente escolar, procurará premiar aqueles que alcançarem o nível de excelência em seus trabalhos acadêmicos com a possibilidade de expor para um grande público o resultado de suas pesquisas.
RAPHAEL AUGUSTO
Cientista Social e Político (Unicamp), mestrando em Sociologia Política pelo PPGS-Unicamp.
Orientador educacional e Professor de Ciências Humanas do Colégio Litteratus
